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O novo luxo é desaparecer



Reparou que agora o luxo é ser difícil de encontrar?

 

O luxo nunca permanece o mesmo. Ele muda de forma, de linguagem e, principalmente, de função.


OS 15 MINUTOS DE FAMA PROMETIDO A TODOS POR ANDY WARHOL

Antes das redes sociais, nos anos 90 e 2000, celebridades eram inacessíveis. O acesso era restrito: revistas, entrevistas e imagens de paparazzi que funcionavam como fragmentos de uma vida distante. 


Durante muito tempo, acreditamos que ser relevante era estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Mas talvez a saturação da presença tenha criado um efeito inverso: quanto mais alguém aparece, menos mistério resta. 


Fomos além. Se Andy Warhol prometeu que todos teríamos os “15 minutos de fama”, as redes sociais cumpriram esse papel tão bem até o ponto de saturá-lo. Há um grande desespero inconsciente por atenção. A visibilidade deixou de ser exceção e virou o novo padrão. E quando tudo é visto o tempo todo, ver já não distingue ninguém. 


Em uma cultura marcada pela hiperexposição, onde todos compartilham o que comem, para onde viajam, o que compram e com quem se relacionam, a privacidade se tornou um recurso escasso. E tudo aquilo que se torna escasso tende a adquirir valor.


DA MODA AO COMPORTAMENTO

Entre 2017 e 2019, vivemos a era da logomania. Logos gigantes estampavam bolsas, tênis, jaquetas e acessórios. O luxo precisava ser visto. Quanto mais evidente a marca, maior a capacidade de demostrar poder e ostentar.


A partir de 2022, esse movimento começou a perder força. Surgiu o chamado Quiet Luxury: roupas impecavelmente construídas, tecidos nobres, silhuetas discretas e logos quase invisíveis. O valor já não estava na exibição, mas no reconhecimento silencioso. 



Nas últimas semanas, matérias e discussões nas redes sociais voltaram a se perguntar sobre a localização das gêmeas Olsen. Apesar de comandarem uma das marcas mais influentes da moda contemporânea, a The Row, elas permanecem praticamente invisíveis. Raramente concedem entrevistas, quase não aparecem em eventos e mantêm suas vidas pessoais longe do alcance do público.


Marcas como The Row transformaram esse visual em referência, enquanto Mary-Kate e Ashley Olsen passaram a representar uma nova forma de sofisticação baseada na discrição.

Mas até o discreto pode ser incorporado pelo mercado. E quando um estilo se torna reconhecível, ela já começa a perder seu diferencial.


É nesse ponto que surge um questionamento mais profundo: o próximo passo do luxo não é o que se veste, mas o que não circula.


Talvez o Quiet Luxury já esteja perdendo lugar para uma nova tendência. o próximo passo dessa lógica parece ser a ideia de que nem mesmo a própria pessoa precisa ser exibida.


A NOVA ERA DO LUXO


Essa ideia revela algo maior sobre o momento cultural que vivemos. O desejo sempre dependeu de distância, expectativa e imaginação. Em uma sociedade onde tudo está disponível o tempo inteiro, a disponibilidade excessiva produz o efeito contrário: reduz o encantamento.

O próximo estágio do luxo parece não estar mais nas roupas, nos objetos ou na estética. Está na presença, ou, para ser mais claro, na ausência dela.


O luxo foi banalizado e deixou de parecer exclusivo quando se tornou onipresente. A gente começa a ir em restaurante que não gosta, comprar roupa que não combina e seguir trend só pra pertencer a um grupo. No fim, a gente tá buscando a aprovação de gente que nem é tão importante assim. O LinkedIn dita seu sucesso, o Instagram dita sua viagem, e a gente vira refém.



Para Freud, o desejo nunca se organiza em torno daquilo que está plenamente presente, mas justamente em torno do que falta, do que foi perdido ou permanece fora de alcance. O desaparecimento, nesse sentido, não elimina o desejo; ele o intensifica, porque abre um espaço para a fantasia operar, preenchendo as lacunas deixadas pelo que não se vê.


Enquanto a lógica das redes sociais recompensa a frequência, o novo luxo parece operar pela raridade. Ser visto menos. Revelar menos. Permitir que a curiosidade exista. Ter mais lacunas para deixar a imaginação brincar, ou simplesmente focar mais na sua vida.



COMO RETOMAR O CONTROLE DA SUA NARRATIVA


Durante anos acreditamos que influência significava ocupar todos os espaços. Estar presente em todas as plataformas. Produzir conteúdo continuamente. Ser lembrado o tempo inteiro.

Os mais ricos somem dos feeds, escapam do olhar público, dos algoritmos — esse sistema invisível que empurra e espalha tudo o que nos envolve online. Para eles, invisibilidade vira um projeto, tão calculado quanto a própria exposição.


Para a maioria, o cenário é outro. O LinkedIn já entrega a nossa posição no mundo. O Instagram nossas viagens. As imagens deixam de ser “nossas” no instante em que entram na circulação digital.


Hoje em dia, a privacidade está cada vez mais rara. Não só porque o mundo invada nossa vida, mas porque a gente mesmo não consegue parar de se exibir. A gente vive num ciclo onde sentir que precisa postar tudo virou o normal. 


As mídias sociais nos prometem controle sobre as nossas narrativas, mas ao escolher os momentos perfeitos, as fotos editadas certas, estamos alimentando uma cultura de vaidade monetária. O que importa para você é que os outros vejam, e enquanto eles te analizam, você analisa eles. 


No final, a grande pergunta é: sua vida é sua vida ou sua vida está sendo induzida pelo teatro para as mídias sociais. Se a resposta for a segunda opção, não é você que usa a plataforma, mas sim a plataforma que usa você. 


É como se fosse uma coesão, você começa a frequentar lugares onde as pessoas vão só porque você viu na rede social, começa a comprar roupas só porque viu na rede social e começa a viver uma vida buscando inconscientemente fazer parte de uma tribo? De quem será que você está buscando aprovação?


PARA CADA AÇÃO, UMA REAÇÃO.

A contracultura começa a atacar. 


O silêncio volta a ter valor. A privacidade volta a ter valor. A inacessibilidade volta a produzir desejo porque o desejo nunca nasce da presença constante. Ele nasce daquilo que não está imediatamente disponível, do que permanece parcialmente desconhecido.


Talvez seja por isso que desaparecer esteja se tornando o novo símbolo de status. Não porque a ausência tenha valor como moeda social, mas porque ela comunica algo cada vez mais raro: a liberdade de não depender da atenção constante dos outros.


O novo luxo talvez não seja possuir algo que ninguém tem.

Talvez seja viver uma vida que ninguém consegue acessar.


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